quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Sally

Repentina paixão
me despertaste.
Teu olhar biônico,
teu ser reminescente,
teu sangue libertário.
Fez de mim o meu contrário,
entre a ficção e a realidade.
Nossos corpos, as taguagens,
tudo combinado,
é a perfeita harmonia do caos.
Visto então o vestido preto,
consciente de meu cárcere,
Celebro então o luto eterno
em um copo de vinho,tão seco
quanto o abismo que nos separa.
Olho atento os rabiscos no papel,
não tem forma ou métrica,
é você, simplesmente você
Nem mais, nem menos.
E talvez um pouco de mim.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Exangue

Ele percebia seu tom de perturbação pelo ritmo acelerado do movimento das pálpebras. Ela, sentada sobre o banco a meio sol, resgatava na memória as poucas cenas que então lhe eram permitidas. Tentavam remontar pacientemente o caminho traçado até o presente lugar, o banco, a mesa de pedra, sentados frente a frente, separados por um abismo. Era um jogo do silêncio, cada movimento, cada suspiro, significavam coisas novas completamente indecifráveis para o outro. Nove anos de convivência mutua e eram perfeitos estranhos.
- Vou embora, disse ele.
-Estou grávida, retrucou a moça.
As palavras soaram exangues, tudo era neutro. Estavam agora à cinqüenta mil quilômetros um do outro.
O samba ambiente do bar, os transeuntes em passos matinais, o ruído do rio distante soando como sussurro, formavam o cenário perfeito para a típica tragédia urbana.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Microconto pra você

Quieto, silencioso, inepto. Passou a manhã toda no mais completo isolamento de si mesmo. Ocupado com suas funções mecânicas , degustou rapidamente a porção padrão de comida. Voltando ao escritório, passou os olhos sobre o jornal sem entender mais do que duas palavras e tornou ao incessante trabalho exógeno. No fim da tarde, satisfeito com a sensação de dever cumprido, arrumou os papéis para o dia seguinte, inevitavelmente igual, atravessou o corredor da sala que dava para a rua e acenou com orgulho para a placa que dizia: Sorria, você tá sendo filmado. Permaneceu mudo o resto do dia.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vlaminck

Cinza esvoaçante,
Branco firme.
Traços longos,
... Espatulados,
Solitários,
Sólidos

Resíduos finos,
Esponjosos,
Superfície plana,
Piramidal,
Preto cândido,
Tempestade,
Inverno

Paisagem –casa,
Casa- paisagem,
Carnaval de cores,
Mistura de tintas,
Pixels,
Pigmentos,
Sensações,
Silêncio.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Desperto

Desperto do espaço
no frio da noite,
na cama da lua,
no calor do mormaço

Desperto do sonho,
como o ás do entorno,
na reviravolta frenética,
livre da forma,
da harmonia,
ou de qualquer
outra estética,

Desperto do infinito
semblante triste,
da marejada face
cunhada em riste,
do brilho calmo
do desconforto,
da alma inerte,
do corpo morto.

Eternamente,
desperto,
da fome,
do medo,
da aurora,
um pouco do todo,
que fui,
desabrigado,
de outrora.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cancro

"Qual face esconde então os designios, o caminhar, a situação? Qual mascara que vestes então sobre forma de mônada? Quais verdades escondes de ti mesmo em hábitos originalmente alheios? E se então ver-des, verdes os matos, vermelhos os sangues, azuis os céus e brancas as nuvens?
Roe então o teto de tua casa, amplamente desenhada, sob gotas cristalinas e mornas de suór, tua e te deus conterrâneos. Dissolvem-se assim os alicerces, em movimento quase mecânicos, daonde vem tal gangrena? Pois é idiopática, nasceu contigo, cresceu com o tempo, e inflamou com os vermes que agora te devoram. Qual remédio? Ruir, ruir, ruir.."

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Bandeira

E Bandeira
então seria
bandeirante
da poesia?

Desbravador
de versos,
homem frio,
anomalia,
da doença
padecia,
se não fosse
tal moléstia,
como então
que viveria?

Não sendo
refém dos
versos,
como elaboraria,
tão bonita
alegoria,
e se mesmo
assimo fosse,
o que
então seria,
criador,
criatura
ou cria?